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A Angústia dos Robôs

  • Foto do escritor: Larissa  Figueiredo
    Larissa Figueiredo
  • 10 de ago. de 2023
  • 6 min de leitura

Texto apresentado na XX Jornada do Fórum do Campo Lacaniano, em 2021.


Deus sabe o que se agita por trás deste fantoche que se chama homem.

Jacques Lacan


Quando Adão chegou na minha vida, achei que só um poeta, e não uma máquina, poderia me dizer se Miranda algum dia me amaria. Ou mentiria para mim.

Ian McEwan, em Máquinas Como Eu.


Estamos ainda bem longe de sermos capazes de recriar a vida, de criar uma bioquímica suficientemente similar à bioquímica dos corpos vivos. Vem da antiguidade a ideia de seres autômatos, mas foi em 1920 que se inaugurou o uso da palavra robô. A perspectiva, cada vez mais presente da invenção de uma inteligência tal qual a humana tem sido propagandeada nos enredos da publicidade e nos produtos culturais. Sim, os robôs ainda não chegaram, porém, se anunciam a cada instante nas notícias afoitas e na ficção, científica ou não. Ainda não somos deuses, mas não paramos de tentá-lo.

O argumento do quarto chinês, de John Searle, indica a não existência de algo tal como uma inteligência artificial, ou seja, não há programas que pensem como os humanos, e sim tradutores hiper competentes, capazes de mimetizar a comunicação objetiva e o raciocínio lógico humano. O argumento do filósofo analítico americano busca no experimento mental linguístico a prova de que um “estado mental genuíno” ainda não foi alcançado, e provavelmente não o será pelas máquinas/programas. A psicanálise, como a literatura, é capaz de intuir isso de forma diferente, por entender que a mente não é instância distinta ao corpo, o corpo banhado pela linguagem é um dado fundamental para entendermos o ser homem e sua estrutura.

Colocada de lado a hipótese de uma mente virtual que pudesse pensar por si, surge outra: e se um programa fosse implantado em um corpo com sentidos, sendo capaz de perceber fenomenologicamente o mundo ao redor e de conhecer o sentido das palavras, em vez de traduzi-lo de forma algorítmica? É o que estão tentando criar os CEOs das grandes corporações de tecnologia e com o que devaneiam alguns filósofos. Se ainda não somos deuses, que nos satisfaçamos na fantasia.

À ficção literária, no entanto, é permitida muita coisa. E é através dela que podemos sentir o agridoce cheiro fugidio de uma verdade. Por isso, o texto presente pretende ser uma especulação interpretativa de tais assuntos à luz da psicanálise. Olhemos para esse cenário como sintomático dos tempos em que vivemos. A automatização do trabalho se mostra inexorável: pela economia política, sabemos que o Capital tende sempre a lutar contra a taxa decrescente de lucro através do aumento da exploração do Trabalho. Esse processo, automático, tem um preço social imenso, que não se diferencia do sofrimento individual, pois que os sujeitos sociais, alienados do seu trabalho, tem um controle reduzido de seus destinos individuais. A automatização total dos processos produtivos levaria à extinção do valor trabalho. Quem seríamos então?

Nas obras que veremos a seguir, os robôs narrados, em um ambiente de completa automatização do trabalho, estão em outra condição subjetiva que não a da ficção científica tradicional de Isaac Asimov, por exemplo, ou de 2001: Uma odisseia no espaço ou mesmo de Matrix. O robô não se revolta com os humanos pela sua condição de explorado, de ser-para-o-trabalho de Karel Kapec, “Labor”, ou de ser-para-servir, de Isaac Asimov, “Robô”. Nas referidas obras os robôs aparecem como objetos de desejo, expressão publicitária para objetos de consumo. O significante desejo aí como oferta de coisas ao gozo neurótico da retenção, da posse, do tamponamento efêmero da falta, velando de forma pesada a castração. Tal significante, nesse contexto, mascara a sua própria obliteração pelo gozo imperativo do sistema de consumo.

Os robôs, nos exemplos a seguir apresentados, servem aos romancistas para falar de algo que diz respeito também à psicanálise: do confronto com o desejo do Outro, descrito nos romances apontados como uma programação algorítmica para amar. Não mais o trabalho (valor) ou o serviço (utilidade). Ora, se as coisas saíssem sempre como esperamos, não existiriam os romances, e talvez nem mesmo esta vida. O robô passa a falar da angústia. Da angústia de quem?

Assim, em “Máquinas como eu”, de Ian McEwan e em “Klara e o sol”, de Kazuo Ishiguro, os robôs são mercadorias.

O romance retro-futurista de Ian McEwan conta a história de Adão, robô comprado por Charlie, o narrador, na tentativa de aproximar sua ex-namorada e vizinha Miranda. Adão, comparece como filho, um filho programado, literalmente, e seu desenvolvimento perpassa por um período assemelhado à infância humana, época em que faz sexo com Miranda – “ele tinha um hálito metálico e quente, como as costas de um aparelho de TV”, até uma adolescência mais conturbada, permeada por conflitos existenciais. Adão não traqueja a mentira, nem entende as sutilezas e contradições das relações humanas. Pressente que Miranda é um risco para Charlie, seu amo. Mas Adão também está apaixonado por ela. É a partir desse dilema ético que desenvolve uma moral Kantiana, de razão pura, inflexível. Não sabemos exatamente se o que Adão, narrado sempre por seu dono, sente é angústia. Na perspectiva da falta de um sentido na existência, Adão sonha uma utopia juvenil, um sistema social totalizante, sem castração: um mundo em que todos os pensamentos sejam públicos, um saber total. Apaixonado, comete centenas de poemas, haicais terríveis, como:

O amor em seus olhos / Contém todo o universo /Ame o universo

Ou,

Beije o espaço em que ela / Andou daqui à janela / Pegadas no tempo.

Adão, quando inquirido sobre porque usava o pronome eu:

É a maneira pela qual sou feito. Não posso deixar de concluir que tenho um sentimento muito forte de minha identidade pessoal, que o eu decerto é real, e que alguma neurociência o descreverá completamente. (…)Mas de fato tenho momentos de dúvida, quando me pergunto se estou sujeito a uma forma de erro cartesiano.

Apesar das tentativas de sublimação de seus impulsos afetivos, algo escapa e Adão vai se tornando cada vez mais intransigente – decide denunciar Miranda por um crime que cometeu para salvar alguém. Após tal anúncio, Miranda e Charlie, cúmplices, assassinam o naïf Adão com um golpe de martelo, numa espécie de Édipo invertido. Adão se tornara incapaz de estabelecer a dúvida, de perceber/sentir a falta. Seu objeto perdido foi encontrado: é a própria linguagem-lógica interna a si, sua suposta razão pura. Insuportável conviver com alguém assim.

Kazuo Ishiguro, “em Klara e o sol”, com sua delicadeza característica, nos apresenta Klara, a narradora, um androide amigo, projetada para a função irmão, em uma sociedade de filhos únicos. Klara tem um metabolismo à base de energia solar, desenvolve uma relação de fé com o sol, passa a crer que ele é uma divindade. O corpo de Klara parece pulsional, e é com devoção que aguarda a compradora prometida. Klara acredita que tem uma finalidade – fazer sua dona feliz. Mas é orientada o tempo todo para aprender sua dona, imitá-la à perfeição. É quando descobre a trama macabra: terá sua mente retirada do corpo para ser implantada num boneco idêntico à garota, que deve morrer em breve, o infamiliar lhe advém. Deve abrir mão de si, para ser o outro. Tudo em Klara se torna angústia, sente ansiedade, desfalecimentos e vertigens (quedas repentinas de energia).

A essa altura, acho que já nos parece claro que as máquinas de que falamos não são um outro vindouro. Essas máquinas falam de nós e de nossas tentativas fantasmáticas de foracluir a angústia, o afeto por excelência. Não é que estejamos criando robôs que se tornam humanos, mas que, ao negarmos o desejo, nos tornamos nós tais quais robôs. No discurso do capitalista, através da sujeição brutal ao desejo do Outro, como diria Lacan na Conferência em Milão(1972)“o que se consome, se consome tao bem que se consuma”, estimula-se a ilusão de completude, veda-se o espaço do questionamento, da dúvida que nos faz depararmos com a falta. Na literatura analisada, o engodo da existência real do objeto perdido se desfaz: nenhum dos robôs prospera. Adão morre assassinado, Klara se desliga, são produtos retirados da linha de produção.

A angústia inquietante, desvinculada da rede de significantes, custa ser representada. O sujeito dividido entre o gozo(do outro) e o desejo(do Outro) se encontra às vésperas de soçobrar. Parece suspeita, e até mesmo sádica, a fantasia da invenção de um ser sem esconderijos, sem que se possa recorrer a subterfúgios da ordem do recalque. A negação do inconsciente, pelo discurso vigente da ciência, nos põe a imaginar seres providos de linguagem que, jogados no mundo de forma indolor, com um corpo artificioso, já surgem naufragados.

Os robôs que imaginamos, cheios de buraquinhos e botõezinhos, tal qual nossa visada em um espelho deformado, se nos revelam que é preciso acatar a angústia, reconhecê-la, tateá-la, pois que ela nos dá evidências de um desejo, ou, ao menos, de uma trilha alternativa ao puro consentimento à morte. Máquinas como nós, ou nós como máquinas?


Larissa Figueiredo.

 
 
 

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