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Da vertigem à crise, do mais ao menos, de lalíngua à letra.

  • Foto do escritor: Larissa  Figueiredo
    Larissa Figueiredo
  • 22 de fev. de 2024
  • 5 min de leitura

Ensaio para apresentação na XXII Jornada do Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza.


Larissa Figueiredo.


Da Vertigem

É a dúvida hiperbólica que leva Descartes, filósofo que viveu durante o auge do barroco, a estabelecer o cogito. A hipérbole é  figura geométrica e de linguagem associada à noção de vertigem (palavra derivada do latim vertigo, significando movimento de rotação; no uso comum, é referida à sensação de queda, giro; no uso figurativo, à desvario).  A dúvida sistemática de Descartes é aplicada para que se estabeleçam bases sólidas no caminho para a verdade e se exclua tudo que é duvidoso, falso. A incerteza o leva a suspender todos os juízos e, desse instante de vertigem, surge um instante de verdade: há coisa pensante, um eu que é no instante mesmo em que pensa. Notemos que Descartes, em sua Meditação Primeira, descarta os sentidos e as coisas dos sonhos – ou seja, o que é do corpo e o que é do inconsciente. Daí, estabelece um eu – unidade idêntica a si mesma – fonte do pensamento e do ato, instância de consciência de si, identificada ao Ser que, por sua vez, é identificado ao pensamento: eu penso, portanto eu sou.  


À crise: No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus.

“Deus está morto!” Anuncia um filósofo, alvissareiro das velhas novidades. Pois não é que só então Deus estivesse morto, Ele o é. Já o verbo não, ele prospera sobre a lápide divina.


A expulsão da mística (semblante garantidor do Ser) do saber moderno, desvela a falta do significante no Outro S(A) e faz fracassar a fantasia teológica, causando uma crise que surge no momento mesmo da “certeza imediata” cartesiana, que já é náufraga na linguagem: ao isolar o pensamento do sujeito, confunde verdade com uma ficção de sintaxe: não controlamos os pensamentos. O momento de método enuncia a conjunção lógica “penso”:.“sou”, deixando na outra cena um “não penso” o qual Lacan disjuntou a “não sou”, situando o ponto de partida da análise na separação entre ser e pensamento, ato do analista  que  faz reaparecer o corpo excluído pelo cogito.

O sujeito chega à análise em crise, pois sua fantasia fracassara e não é mais a eficiente obliteradora da inconsistência do Outro. Porém, esse fracasso por si só não leva o sujeito a renunciar a nada do gozo, e é a busca insatisfeita por mais gozo o leitmotiv do queixume endereçado ao analista. Nesse sentido, psicanálise e barroco estão no mesmo campo: o do sujeito que tem um corpo substância gozante.




Do Mais

No entanto, o ato do analista tem efeitos distintos dos do barroco para o sujeito que, mais que Deus, havia perdido o centro:


“A subversão(...) não consistiu de modo algum em ter mudado o ponto de virada do que gira, foi em ter substituído o 'isso gira' por 'isso cai'. O ponto forte (...) foi um pouco mais Kepler, pelo fato de que, para ele, isso não gira do mesmo modo, gira em elipse. E já é o mais enérgico corretivo para essa função de centro, é ela que está em questão.” 


Deparada com sua própria crise e ameaçada pela Reforma, teologia baseada na modéstia, no trabalho e na razoabilidade litúrgica, que atraía e abrigava esse homem sem centro, a Igreja Católica recoloca o corpo em cena. Não à toa, Lacan aponta que:


“falo apenas do que se vê em todas as igrejas de Roma, em tudo o que se pendura nas paredes, tudo o que desmorona, tudo o que é delícia, tudo o que delira, não é? Enfim, o que chamei, há pouco, de obscenidade, mas exaltada.” 

Apostando no horizonte de um gozo místico – gozo Outro – é criada uma retórica de efeito pictórico vertiginoso na persuasão do homem caído do centrocéu, cujo corpo escópico substitui a óptica do ideal humanista renascentista. Dessa mudança de posição do espectador efloresce o gozo. Em outras palavras, não se trata mais da posição neutra do espectador como observador da representação da coisa, mas sim da posição crítica desse espectador arrebatado à deformação da coisa.

É a salvação do Deus morto por um corpo que é gozado além:


“esta doutrina não fala senão da encarnação de Deus num corpo, e supõe mesmo que a paixão sofrida por essa pessoa tenha constituído o gozo de uma outra”.


 O barroco é portanto:


“(...) a regulação da alma pela escopia corporal” 


Regulação aparelhada da linguagem, persuasão do corpo à miragem do infinito, que, transcendido e arrebatado, é marcado e martirizado. O gozo é exaltado, mas sem relação com a cópula. No lugar da não relação sexual, há a opulência do Outro gozante, cujo excesso acaba por realçar o furo, a impotência do discurso que, fatalmente, se exaure e, nulo de efeitos, pode recair no cômico ou no trágico.


Ao Menos

Às barroconsiderações de Lacan sobre o que aconteceria se um chinês se deparasse com a representação dos mártires, Haroldo de Campos, em “Barrocolúdio, transa chin?”, responde que na literatura chinesa também há barroco, “fruto de uma era de perplexidade intelectual” e que os chineses “deveriam ter experimentado conflitos mentais irresolvidos”, sendo possível barroquizar-se o chinês:


“E então como expõe o dr. Lacan, ao dispor para nós a ob(via)cena burocolúdica”.


Essa compreensão do barroco corrobora a nossa ideia de que esse é um efeito da divisão e do descentramento do sujeito moderno, uma operação de solução à crise causada pela foraclusão do corpo do discurso científico-racional da modernidade.


A solução inventada pela psicanálise frente a essa crise é diferente: ela não encampa a via da sutura da divisão nem propõe uma nova centralidade; ao contrário, sustenta um descentramento:


“Não é, até segunda ordem, o discurso analítico, tão difícil de sustentar em seu descentramento,” 


A psicanálise encarará a questão por outro viés.


De Lalíngua

No fim do seminário Encore, Lacan, ao fazer uma espécie de síntese do seu percurso, vem nos falar de lalíngua como gozo da linguagem anterior ao gozo do Outro, inaugural do falasser e que não serviria para comunicar:


“a linguagem é o esforço feito para dar conta de algo que não tem nada a ver com a comunicação, e é o que chamo de lalíngua" 


Assim, o inconsciente seria feito de lalíngua, como vemos logo em seguida:

“Foi o que a experiência do inconsciente nos mostrou, na medida em que ele é feito de alíngua


A linguagem seria o que se tenta recolher de lalíngua como saber da ciência, uma “elucubração de saber de alíngua”, ao passo que o inconsciente seria um “saber - fazer com alíngua”. Mas, saber fazer o quê?


Causar efeitos de afetos. Saber de que “não tem nada a fazer”. Lalíngua causa efeitos de afetos no corpo. É, como disse Haroldo de Campos, “uma língua enfatizada, tensionada pela ‘função poética’”.


À letra: E o Verbo se fez carne

Mas esse gozo, inaugurado por lalíngua, encontro do significante com o corpo, onde se localiza? Na carne, marcada pela letra, que faz contorno e delimita o gozo de lalíngua, ligando o corpo do falasser ao Outro da linguagem. É traço mínimo do gozo, que o reduz e o ancora, evitando os efeitos devastadores de sua não contenção. A letra é limite, no sentido matemático, seu traço demarca o um do sujeito, no que ele tem de único na repetição de seu sintoma, é a escrita das condições de gozo.


Portanto, o conceito de letra, no nosso entendimento, é com o que, o discurso analítico, apesar de estar do lado do barroco, suporta uma posição crítica em relação ao gozo, evitando o colapso ou a dessensibilização do corpo, sem recalcar a crise causada pelo saber da não-relação sexual que não cessa de não se escrever. Uma análise, então, pode levar à escrita de algo que cessa de não se escrever, precipitando um acontecimento novo, uma nova poética do sujeito: nem menos nem mais nem menos menos.



 










 
 
 

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