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Fenômeno Psicossomático: decifração na fronteira entre saber e gozo

  • Foto do escritor: Larissa  Figueiredo
    Larissa Figueiredo
  • 6 de nov. de 2023
  • 5 min de leitura

Atualizado: 7 de nov. de 2023

Produto final do cartel apresentado em setembro de 2022 ao Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza: "Fenômeno psicossomático, que gozo é esse?"


Larissa Figueiredo


Se não pudermos ver com clareza, ao menos vejamos com precisão as obscuridades.

Freud, em “Inibição, Sintoma e Angústia”1


A verdade é um enigma a ser decifrado e a psicanálise constitui-se como teoria e técnica do deciframento.

Luiz Garcia-Rosa em “Palavra e verdade na filosofia antiga e na psicanálise”2


1. Uma questão sem texto

“O que me moveu neste Cartel?” No último encontro, diante dos colegas que questionavam, afinal, já elaborou sua questão? fiquei sem reposta. Pergunta de fim, embora devesse ser o (pré)texto de entrada, fez sentido nos estertores da transferência de trabalho. Desejo de (ter?) um saber?

Ora, a pergunta já indica: não há saber que se tenha, trata-se de topos e cronos, posição flutuante. O saber como propriedade/posse é da ordem do gozo fálico – máscara do não-todo saber. A questão do fenômeno psicossomático (FPS) é de, como aponta o nome do cartel, mostra fenomênica de gozo, mas de outro gozo.


2. Beco sem saída

Em Doença como metáfora, S. Sontag aponta o equívoco das interpretações vulgares, das mistificações dos quadros patológicos, das fantasias punitivas subjacentes às estereotipias sociológicas. Defende que:

“a doença não é uma metáfora(…)e a maneira mais digna de estar doente – é aquela mais expurgada do pensamento metafórico e mais resistente a ele”3.

O que aponta é um índice da perversidade nas interpretações selvagens, que reduzem o indivíduo a um sentido do Outro, ignorando o sujeito inconsciente, capaz de construir sua própria metáfora – um dizer particular no corpo, no caso do sintoma histérico. Ou pior, pois os FPSs não se dão a ler, tal uma metáfora ou metonímia, como veremos adiante.

Sontag denuncia o anti-intelectualismo do pensamento mágico de que palavras como “câncer” e “tuberculose” seriam capazes de levar a sucumbirem os pacientes.4 Propõe o enfrentamento do diagnóstico situando-o na geografia do real (aqui na acepção de realidade biológica). Para ela, os significantes não tem nenhum condão:

“Em vez de conferir significado, objetivo principal do empreendimento literário, esvaziar o significado de algo: aplicar a estratégia quixotesca, altamente polêmica, de ser ‘contra a interpretação’ dessa vez ao mundo real. Ao corpo”.5

Esvazia, assim, as simbologias historicamente perpetradas pelo discurso do Mestre e desimplica o indivíduo, que, assujeitado diante da patologia, rebaixado ao status objetal de mero organismo – torna-se produto do discurso Universitário.


3. Na fronteira

Em A psicologia das massas e análise do Eu Freud busca explicar o fenômeno da sugestão, até ali tido por primário, pelo processo de identificação6 que, sabemos hoje marcam o corpo do sujeito.

A coragem de Freud de revogar verdades provisórias nos leva a pensar: estando a pulsão situada no limite entre somático e psíquico, por onde ir para entendermos os mecanismos de adoecimento no FPS? É essa uma questão da psicanálise? Da medicina? Ou é questão limítrofe, tal a pulsão? A pele delimita o corpo no espaço exterior e, revertida para dentro, reveste o aparelho gastrointestinal. Pele, estômago e intestino: é de quem recebemos, amiúde, notícias sobre as aparições do FPS.

Respostas surgem. Às vezes, tem ar de superstição, como essa de Nasio: certos significantes estimulariam genes específicos que se ativariam produzindo patologias no corpo.7

Diante de uma fronteira, como prosseguir?


4. Algumas Pistas

Na Conferência de Genebra sobre o Sintoma, Lacan nos fala de um hieróglifo, algo da ordem do escrito, enigma, traço Real, marca de nome próprio.8

A marca (lesão orgânica) seria resposta no corpo à indução significante, cujo sentido está no Outro, inacessível devido o congelamento entre S1 e S2(holófrase). Tal significante congelado é recebido como imperativo. A releitura de Lacan do experimento pavloviano abre nova perspectiva a respeito: a indução significante é antagônica à dialética do desejo.9

Dessa invasão do desejo do Outro, recapitulemos o Sem. 2: no circuito autoerótico há investimento libidinal excessivo no órgão lesionado - gozo.10

Dado o caráter entrópico da economia do gozo11, cogitamos ser essa a economia da doença de fundo psicossomático, em que, a cada repetição, o ganho marginal de gozo equivaleria à perda de carne. Há a mais de gozo, resto viscoso aderido nos sulcos escavados em uma primeira experiência marcante, gozo específico que aparece na realidade (imaginária) do corpo. Estamos na interseção entre os registros do Real e do Imaginário, região do gozo Outro.12


5. Onde se fracassa

No Sem. 20, ao abordar a problemática do gozo Outro Lacan diz:

“Desse lugar do Outro, do gozo do Outro (...) o que é que nos permite colocar o mais recente desenvolvimento da topologia? Colocarei aqui o termo Compacidade.”13

Tal conceito não é intuitivo, sendo de difícil compreensão. No famoso libelo contra a intelligentsia francesa, Imposturas Intelectuais, de Sokal e Bricmont, o primeiro réu é Lacan com seu uso do conceito de compacidade, acusado não havê-lo entendido.

“Embora Lacan utilize um bom número de palavras-chave da teoria da compacidade, ele as mistura arbitrariamente e sem o menor respeito pelo seu significado. Sua ”definição” de compacidade é não somente falsa como também não passa de puro palavreado.” 14

Obscuro e nebuloso, o conceito de compacidade não esclareceu a estrutura do gozo Outro. Lacan falhara?

Transmitir um saber é fracassar. A busca de Lacan por uma forma de transmissão da estrutura falha e daí pode advir o desejo de continuar.


6. Alguma literatura

O FPS, apesar de ilegível, se mostra, é falado pelo sujeito, pode ser evocado por números e palavras. Como decifrá-lo?

Arqueologia da palavra: o termo decifrar origina-se do árabe cifr, vazio, nada, zero. Assim, decifração de um código é desfazimento de um vazio. A letra positiva o vazio no litoral entre saber e gozo, é resposta parcial à pergunta que emerge e permanece: é possivel conceber o corpo fora dos limites do paradigma monolítico do corpopsique ou da bipartição corpo-e-psique? Afinal, o que é o corpo?



Referências bibliográficas

1) Trecho citado no comentário da edição da Cosac e Naif de “A negação” encontra-se na p. 46, da edição de Neurose, Sintoma e Angústia da Cia das Letras com a seguinte tradução: “Se não conseguimos ver claramente, ao menos vejamos precisamente o que não está claro.”

2)P. 7. GARCIA-ROZA, Luiz A. Palavra e verdade na filosofia antiga e na psicanálise. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1990

3)P. 11, SONTAG, Suzan. Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas. Cia de bolso, Rio de Janeiro, 2007.

4)P. 13, SONTAG, Suzan. Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas. Cia de bolso, Rio de Janeiro, 2007.

5)P. 44, SONTAG, Suzan. Doença como metáfora/AIDS e suas metáforas. Cia de bolso, Rio de Janeiro, 2007.

6)P. 46, FREUD, Sigmund. Psicologias das massas e análise do eu. Cia das Letras, Rio de Janeiro, xxxx.

7)P. Yy, NASIO, J.-D. Psicossomática – As formações do objeto a. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1983.

8)LACAN, Jacques. Conferência de Genebra sobre o sintoma (1975). Opção Lacaniana – Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo, n°23, p.16, 1998.

9)Ps. 215, 216; 224, LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1973.

10)Ps.126, LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 2 – O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1955). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1995.

11)Ps.46; 64, LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 17 – O avesso da psicanálise (1969). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1998.

12)P. 54, LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 23 – O sinthoma(1975). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1998.

13)P.17, LACAN, Jacques. O Seminário – Livro 20 – Mais, ainda (1971). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1996.

14)Ps.39; 43, SOKAL, Alan & BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro: Esditora Record, 2010.

 
 
 

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